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sexta-feira, dezembro 17

Está fazendo frio neste lugar

Não quero falar sobre como as pessoas levam uma vida inútil e acham que o problema é a morte, embora isso seja em que mais penso. Acho que pensando nisso perco meu tempo, e minha vida se torna tão ridícula quanto a sua.
Nada é verdade.
Isso não existe.
Não busque.
Já chega.
Cansei desse seu modo egoísta e monárquico de viver a sua e a dos outros. De viver a sua e a minha. Sempre estou sendo interrompida pelos planetas que giram ao seu redor. Não caibo nesse mundo do seu umbigo. Não caibo mais nessa nossa realidade forçada.
Nada é real.
Não é mesmo?
Eu provo e provo dessa rotina e mais a odeio.
A cada dia fico mais calada.
Viro mais espectadora. De mim.
Façam o que quiserem, vistam-se, chorem, ameacem me matar cada vez que sentirem vontade, expulsem-me quando precisarem, xinguem-me quando acharem necessário para o seu bem-estar. Simplesmente não me importo mais.
O que eu sentia por vocês se tornou obrigação.
Uma fria obrigação, e me pergunto se quero ser
obediente...

quarta-feira, dezembro 15

9: quase 54

Talvez querer binóculos para observar as pessoas signifique precisar mudar meu conceito sobre elas. Essa necessidade de observar sua vida íntima, suas manias e seus fazeres secretos é só esperança de encontrar alguém interessante neste mar de gente chata e comum. E assim parar de generalizar os outros. Talvez funcionasse, mas tenho medo de me decepcionar e condenar a sociedade de novo. É tudo muito sem graça. Aceitam essa vida linear, óbvia, fast-food, palhaça. Vivem assim, sem mais nem menos, vivem fazendo figuração. Figuração na vida de quem? Porra, é mesmo. Tem razão. Na vida de quem? Nem eu sei.
Ninguém sabe de nada. Pra quê querer saber? Não faz diferença, não muda nada, você ainda vai morrer, ainda vai morrer, ainda vai. Esquece o que vem depois, o que é incerto, o que vem antes é o que deveria te interessar.
Mas você é um idiota, somos idiotas comprados, usados, por que te culpo?
Me desculpe. Não sei calar. Eu sei, eu sei, você não pediu pra saber. É que minha sinceridade não tem educação.
Bem, se eu tivesse binóculos, não teria educação pra outra coisa. Calada. Mas iria mastigar e esquecer. A distração é a maior droga de todas, maior droga. Você precisa o tempo todo e eu também.

terça-feira, dezembro 14

pinturas

O que são essas coisas e como passaram a ter lógica? A gente vai, senta num banco, olha ao redor. Tudo é tão cotidiano, tão lógico. Nem nos damos ao incomodo de estranhar. Os carros passam, as árvores, ainda ali, pintam o ar de verde, a gente olha e vê: pessoas, placas, postes, tudo, tão normal. E que problema há em se acostumar com o dia-a-dia e não fazer festa a cada nova imagem? Tudo faz parte da lógica que nos embala desde que nascemos. Antes de nascermos, já estava tudo ali. Estava, em outro fluxo, mas estava. Estamos continuando a vida. Assim, sem novidade.
Assim, sem novidade?
Eu lhe digo, então. São tantas coisas comuns que perderam a voz e você já não se importa. Elas perderam a voz, viraram cenário desnecessário. E você já o ignora. Não vê que dali existem tantos outros ângulos, tantas outras formas e interpretações. Tudo está tão novo e você não vê porque não te interessa. Tudo está tão na cara, e você se limita nessa lógica absurda do banal.
Você se prendeu à lógica absurda do banal. São tantas lógicas que nos embalam, você só se prendeu. Se limitou.
E passa. Do parto à partida, e você nunca prova do gosto da vida.
Sempre aí, sentado num banco, indiferente.